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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

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Terceira história

Naquele princípio de tarde de Agosto havia encontro marcado em casa com os homens dos soalhos flutuantes. Medições feitas, foram retirados da sala os móveis que passavam pelas portas, deixando-se lá os mais largos, esvaziados para que se pudessem desviar. À vista da ausência acidental de várias parcelas de tacos do parquê, e tendo verificado um grave desnível ao nível do pavimento, os homens dos soalhos flutuantes decidiram arrancar tudo. Iniciado tarde, o trabalho não se concluiu nesse dia. Com encontro marcado para a manhã do dia seguinte, sozinha nas ruínas da sala sem pavimento, sentei-me no sofá de três lugares que lá ficara, a cismar no que tinha de escrever. Havia ainda as estantes sem os livros, a mesa sem as cadeiras, uma secretária. Naquela sala onde eu lia, estudava e escrevia, o pavimento de cimento lembrava a superfície de um animal esfolado. Fui buscar uma cadeira e as coisas de escrever, sentei-me à secretária e tentei começar. Melhor seria ter ido para a cama ou para um café… As folhas lisas onde sempre esboço o que tem de ser escrito encheram-se de riscos de lápis de carvão – mas era uma esferográfica e eu estava em revisões. Confundindo amantes com leitores, eu escrevia um conto. Debaixo da secretária, as plantas dos pés descalços distraíam-se a identificar a superfície arenosa do cimento de que são feitas as casas, como se via na obra das traseiras, a que começava a tapar a vista para a floresta de Monsanto. Ali estávamos. Sem chão e sem conforto, num princípio de noite de Agosto. Pressenti a velha angústia que por vezes parece durar para sempre, e que tantas vezes se trata com o bom senso de pensar que tudo passa. No dia seguinte, quando os homens dos soalhos flutuantes tivessem saído, a casa teria outro cheiro e outro chão. Tudo no sítio, tudo parado, comigo lá. Com a vista e a tacto do cimento que jazeria sob as tábuas amadeiradas, quis chegar a uma conclusão, mas não era o tempo. Passaram quase sete anos, e ainda hoje não consigo concluir a terceira história.

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