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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

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Segunda história

Numa manhã de um mês de Dezembro, sentada na cama do meu quarto na casa dos meus pais, eu destruí todos os meus diários. Tudo o que escrevi, dos sete aos vinte anos de idade, foi arrancado, rasgado e reciclado. Eu tinha vinte e sete. Sabia à época, como julgo saber agora, que era já uma idade tardia para fúrias clastómanas. A questão é que nunca é tarde para sofrer, e essa era a questão. Destruir os diários foi a minha tentativa mais desesperada de me destruir de uma só vez. Eu queria acabar com as provas escritas de ter sido eu, de ter pensado o que pensei, de ter deixado marcados os sonhos de ter vivido. Era, porém, uma forma de existência particular que eu queria destruir: a existência de uma certa mulher em crescimento. Se me lembro bem, e estou longe de não me lembrar, não havia diário meu que não fosse dedicado a um amor. O que me ficava dos dias que eu ia vivendo, o que eu escolhia escrever no sítio onde se escrevem segredos, eram os episódios felizes ou pesarosos de uma demanda amorosa. Aos vinte e sete anos, a minha ausência de simpatia pela minha pessoa tinha a sua explicação no escândalo que me parecia o facto de eu só ter escrito sobre rapazes desde que tive idade para escrever. "Eu hoje" rapazes, páginas e rapazes, páginas e rapazes e rapazes. Os meus diários eram as listas comentadas dos rapazes que eu queria conquistar, que me tinham conquistado, dos sonhos que eu tinha para nós. Os dias passavam e eu só pensava “naquilo”. Aos vinte e sete anos, insensatamente, eu quis destruir “aquilo”. Por essa razão, só não destruí o que não entrava nos pensamentos diários, o que estava, pensei, para lá deles: poemas e ficções, onde até se podia encontrar um pouco “daquilo”, mas sem nomes e sem mim – a minha pessoa, isto. O que não tem remédio remediado está. Com a esperança do que está ainda por escrever, eu hoje julgo saber, simpaticamente, que aquilo é isto. Assim se conclui a segunda história.  

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