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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

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Reflexão de classe

A seguinte reflexão ocorreu-me durante a prática de uma actividade que não tem sido estéril em impulsos intelectuais mais ou menos consequentes: as limpezas. Como em muitas actividades que são necessárias e conduzem ao aborrecimento pelo seu carácter repetitivo (e necessário), a questão das limpezas resolve-se pensando que não se está a lavar um chão mas sim a pintar de fresco uma superfície descolorada ou a aflorar problemas existenciais. Não é uma decisão consciente, é uma forma de evasão, um entretenimento, o que explica por que tantas pessoas cantam enquanto limpam ou pintam, e tantas outras pensam na vida. Eu pensava numa frase que me dizia a minha mãe quando comecei a ser responsável pela limpeza do meu quarto de dormir; dizia que, por muito que não me aprouvesse limpar o quarto, era importante saber fazê-lo a fim de que, quando fosse grande e independente e tivesse a possibilidade de contratar uma empregada doméstica, eu soubesse dizer-lhe como limpar, de que modo queria ter as coisas limpas e como poderia ela ir ao encontro dos meus ideais de limpeza; por outras palavras, a fim de que eu soubesse mandar. Ora esta frase não é propriedade da minha mãe, mas de tantas mães e avós por esse mundo fora, que têm em comum quer o facto de serem pessoas muito asseadas quer o facto de não terem ou não terem tido quem lhes limpasse a casa. Do facto de eu ainda não ter tido a possibilidade de saber mandar pode ou não seguir-se a presente reflexão acerca de tais questões, que podem ser entendidas como questões de classe. A descoberta das classes sociais ocorre frequentemente em momentos de afastamento da realidade quotidiana e das personagens que a compõem: por exemplo, quando se visita um amigo ou se vai estudar para fora, ou mesmo quando se contrata uma empregada doméstica. É uma descoberta do lugar que se ocupa numa determinada família, numa comunidade humana, no mundo. Nascem então as perguntas: o que faziam o meu avô, o meu bisavô, de onde vinham, onde se estabeleceram, como viveram a sua vida, que valores transmitiram aos filhos, o que sabiam, quanto estudaram? Cresce-se a ouvir interpretações já prontas que veiculam mitos familiares acessíveis ao longo do crescimento. Muitas vezes são interpretações psicológicas (a tia que tinha o riso fácil, a prima emotiva, a avó desequilibrada, a irmã dela que era uma grande mulher); raras vezes se trata de interpretações políticas, e ainda mais raras são as interpretações morais. Na verdade, é preciso distância para chegar a estas últimas, a distância de quem se coloca para lá da história sem a perder de vista (a distância do antropólogo de si mesmo, a distância do romancista). Mas antes de cair nos braços acolhedores de uma qualquer ideologia, seria importante observar e reflectir. É que a descoberta das classes sociais não implica apenas reconhecer que se pertence ao grupo de quem limpa a própria casa ou àquele outro que pode contratar quem o faça, ou mesmo reconhecer que a questão não se esgota na possibilidade de o fazer; implica perceber o que se fará com essa informação, que tipo de vocabulário se usará, quão significativa ou consequente é, afinal, tal descoberta.  

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