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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

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Quinta história

No último ano do liceu, a conjunção – em linguagem de serenidade retrospectiva – de vários acontecimentos determinou o surgimento de um conjunto de sintomas que, lido por quem sabia lê-los, apontava para uma perturbatio depressiva vulgaris. A pessoa a quem se refere a frase anterior é a primeira, sendo a que daqui em diante usarei. Estava (eu!) a um ano de ir estudar para fora, e bastaria o facto, sem a desditosa conjunção de acontecimentos, para baralhar uma cabeça em ordem. Se penso nesse ano, lembro-me de não conseguir dormir, de mal conseguir estudar, de emagrecer (o que achei ter vindo por bem), mas sobretudo da sensação de querer parar e do pensamento severo, que a acompanhava, de que não podia parar. Pode dar-se o caso de o pensamento e a sensação estarem em lugares trocados; consulte-se o ortónimo. (Uma digressão dentro desta: estudar foi sempre das coisas que mais prazer me deu. Nunca o fiz para agradar a alguém, só para me satisfazer, e nunca tive vergonha de gostar de estudar e, portanto, de gostar de me satisfazer. Eu gostava, além disso, de estudar o que quer que fosse, isto é, conseguia retirar prazer de várias disciplinas diferentes entre si. Se um professor era muito mau, apesar dele eu estudava por mim. Fim da jactância.) Associo então o último ano do liceu à sensação de querer e não conseguir parar. Paro depois, depois deste teste, depois dos exames, depois deste ano. Para quem não adivinhe, parar significava não sair da cama. Hoje não posso parar, amanhã também não, não me posso ir abaixo (deitar-me na cama e ficar lá), mas depois sim. Como a vida não parava e eu estava viva, não parei; ou assim deve ter sido, que aquilo foi simultaneamente muito pior do que parece e não tão mau como parece. Uma vez, num dos últimos testes de História antes dos exames, a minha cabeça parou finalmente de funcionar durante mais de uma hora. Pensei que podia deixar o tempo esgotar-se e negociar com a professora a repetição do teste; confiava na benevolência dela porque o episódio era singular. Ao cabo de uma hora desesperante, nos vinte minutos finais respondi como podia às questões do teste. Lembro-me desse episódio porque foi o mais perto que estive de ceder ao instinto de parar (note-se a escolha criticamente suspeita do vocabulário). Por volta dessa época, conheci uma rapariga da minha idade, a quem fora diagnosticada a mesma perturbatio, que tinha parado. Durante três anos ela não saiu da cama, ou foi essa a imagem que retive. Mais do que compaixão, empatia ou outros sentimentos que ficam bem dizer, o que senti em face dela, talvez por qualquer associação romântico-adolescente de saúde mental a mediocridade, foi uma espécie de inveja, experimentada segundo os seguintes termos: como é que não me lembrei disso antes? Ao mesmo tempo, associei a história dos três anos a uma possibilidade, isto é, a um truque na manga a ser utilizado como último recurso: se for preciso, se as coisas se complicarem muito, posso sempre parar, houve quem o fizesse e tivesse sobrevivido para contar. Ela estava melhor quando a conheci, era aquilo a que se chamava uma história de sucesso – porque não repetir a história dela? Invejei então a rapariga por estar mais doente do que eu, por ter conseguido parar. Por essa altura levaram-me a um médico da especialidade, isto é, especializado em doenças especiais. A perspectiva de falar com um adulto treinado que levasse a sério os meus pensamentos e sensações atraía-me, mas tive o azar de a primeira psicóloga que conheci ser uma jovem e pretensiosa nulidade que nem falar sabia, e como é que alguém que gostava de palavras podia respeitar alguém que, embora ricamente vestido e especializado na especialidade, não sabia falar? Fiz, portanto, o pior que podia fazer, pelo menos até então: fingi que aquilo estava a resultar. Não enlouqueci, não me revoltei, não adoeci activamente. Fui crescendo e continuando a sair da cama e desejando continuamente conseguir parar um dia. O que até hoje não aconteceu, que esta não é uma história de sucesso, salvação ou glória, mas pode ser a história da locução prepositiva lispectoriana “apesar de”.    

  

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