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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

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Quarta história

Houve outra razão que me levou a destruir os meus diários (por destruir quero dizer arrancar, rasgar, separar as páginas do esqueleto dos cadernos para serem depois recicladas). Naquela altura, em vez de trabalhar na tese, eu estava a trabalhar num romance epistolar baseado em cartas trocadas pelos meus pais durante o seu longo namoro. Era para mim motivo de espanto que eles tivessem trocado tantas cartas, morando tão perto um do outro. Além disso, as cartas estavam bem escritas, e isso envaidecia-me. Eu sabia da existência dessas cartas desde a adolescência, mas não me tinha sido permitido lê-las. Lembro-me de, aos catorze anos, ter ilicitamente iniciado essa leitura, que não começou do início. Vários anos mais tarde, aos vinte e sete, li-as uma por uma, do princípio até quase ao fim, e comecei a transformá-las com ideias de fazer delas um romance epistolar, como disse. Nunca cheguei ao fim das cartas, e nunca cheguei ao fim do romance, e parei naquele dia em que também destruí os meus diários. Se eu fizesse terapia, esse seria talvez um bom motivo de conversa, porque destruir diários parece, objectivamente, coisa de pessoa pouco sã. (Resta saber se é prova de sanidade falar dos diários, não como ir despejar o lixo, mas precisamente como levar a sério aquilo que só é pensado se for formulado nestes termos, e precisamente assim.) Eu julgo saber perfeitamente o que se passou, e é a história que estou a escrever. Pensei na altura, malsãmente e com muita tristeza, que eu era a minha mãe. Coisas que eu lia nas cartas dela eram eu. Pior, todos os meus defeitos eram ela, e ela era filha da minha avó, e aquilo não tinha fim! Pareceu-me uma injustiça, uma condenação, uma história de que eu nunca conseguiria escapar, de dúbia autoria. A própria ideia de destruir os meus diários (chamar “ideia” a um acto de compulsão é já perder o fio à meada) tinha nela precursora, pois ainda hoje há uma capa de diário muito bonita com todas as páginas arrancadas – ela escrevera pelo menos um diário e arrancara-lhe as páginas por alguma razão, e eu sabia disso e durante muito tempo não compreendi por que razão haveria alguém de destruir os seus diários. Eu senti que nunca conseguiria escapar aos meus defeitos, e o maior deles era, mas isto é algo que julgo saber agora, ser uma mulher. Mas, pensando como pessoas sãs, que mal existe em uma rapariga escrever sobre rapazes? E eu acho que trazer para aqui a cultura é limitador, falso e preguiçoso. A história aqui é outra. É que tinham sido, e viriam a ser, muitos rapazes, e eu era sempre a mesma, e pelos vistos nem sequer tinha a originalidade de ser como sou, mas ser como sou por ser às vezes um pouco parecida com a minha mãe, e até quase muito parecida, com a diferença de que ela só escrevera a um rapaz. Pois bem, eu achei que tinha de acabar com a história das cartas e acabei por destruir os meus diários. Se eu for esperta e conservar a sanidade no futuro, se não me zangar com isto de querer escrever, guardarei pelo menos este texto para me lembrar dos outros. Há ainda outras histórias, e eu penso em contá-las pensando nelas sob determinados termos. Quanto às cartas, o seu a seu dono.          

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