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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

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O vão enredo

O patrãozinho chegaria pelas onze da manhã, duas horas depois de a loja abrir. Era o aniversário da “Cova Beirã”, de portas abertas há três outonos na Rua dos Douradores. André Borralho afanava-se dando ordens ao novo colega, repetindo-lhe que devia oferecer aos clientes que entrassem um copo de espumante e uma frugal fatia do bolo encomendado para a ocasião. O patrãozinho era tão generoso com os seus empregados, dizia André Borralho ao colega, que nesse dia os compensaria do abreviamento da hora de almoço com a oferta das garrafas de espumante que sobrassem.

O patrãozinho chegava e fazia-se luz na “Cova Beirã”, a loja de vinhos que ele abrira, pensava-se, com o dinheiro de uma herança. André Borralho sorria aos clientes ainda mais baboso, pondo mais empenho nas ladainhas que invocava para vender as garrafas de reserva deitadas na prateleira que lhe pagava as comissões. O novo colega cirandava pela loja, observando a singular solicitude do André, a agradar ao patrãozinho… Ele era generoso e a loja fazia três anos, um milagre de permanência na cinzenta Rua dos Douradores. Naquela manhã, por ser dia de festa, viera com a mulher e os três filhos, dois gémeos de colo e uma palradora rabugenta que tirava a paciência a André Borralho. Da mulher ainda gostava menos, sisuda, emproada, a dar-se ares.

Pobre patrãozinho, roliço e galante, amável com os velhos lojistas que esvaziavam ginjas, com os americanos que ali passavam por engano e gastavam milhares, com os turistas europeus que só queriam um branco leve para gozar na varanda do hotel os matizes de rosa dos crepúsculos de Lisboa. Vestido de preto integral por achar que o fazia parecer mais esbelto, enchia a loja de um perfume quase feminino. André Borralho bebia-lhe as palavras, seguia-lhe os passos, imitava-lhe o tom com que se dirigia ao novo colega, antigo caixa que nada entendia da arte das vendas, e que apesar de saber um pouco do inglês com que explicava aos estrangeiros as diferenças entre os Ruby e os Tawny, tinha teimas de racionalidade e insistia em questionar a lógica instituída na “Cova Beirã”. André Borralho desprezava a insubordinação e não perdia um momento a sós com o patrãozinho para lhe fazer as queixas. No vão enredo de lhe ocultar o que queria, eram os gestos e as entoações que o traíam com desfaçatez: tornava-se então burlesco, histérico ao espalhafato. 

O patrãozinho não percebia, ou aparentava não perceber. Na sua cabeça vagueavam outros números, outros enredos, os usos e os costumes de um negócio de que dependia o alimento de não menos de sete bocas. E para preservar o afecto masculino do desvelado braço-direito, levava-o pela Rua dos Douradores acima a petiscar um rabo de saias passante, deixando o novo colega na loja a aprender o papel de filho preterido. O que, tratando-se de uma espécie de molha-beiços que não apreciava, era para ele igual ao litro. A “Cova Beirã” não era a vida, o patrãozinho não era o sol – e André Borralho não era o patrão. Desse modo, por imperativo de inconsciência, no vão enredo de uma revolta tácita, o novo colega descuidava-se com as didascálias e ia deixando cair os copos.

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