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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

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Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

Novembro

Nos dias melhores, o trabalho vai ser a tua certeza, uma fuga e um refúgio. Diz-te o teu colega, nos dias inspirados em que te oferece lições de vida antes de uma pausa para fumar, que o trabalho é a melhor coisa que temos, e nos dias melhores sentes que lhe dás razão. O duche matinal e o pequeno-almoço em casa vão ser a tranquilidade que ganharás com os minutos de sono de que abdicas. Antes dos transportes, com o tempo certo e calculado e responsável da manhã, o primeiro café é um prazer esmerado; é o café comprado com o trabalho do mês passado, um primeiro café e uma manhã por dia que vais merecer todos os dias. Nos dias melhores, ainda que ninguém te veja viver de perto, vais sair de casa e não te sentirás só. O verbo é “participar”. Durante os cinco minutos de caminho a pé até ao metro e os trinta e cinco minutos de viagem até à estação terminal, participas na vida da manhã de uma cidade. O sujeito é anónimo, colectivo. Vais pensar que existe entre ti e as pessoas que te vêem, especialmente entre as que ao de leve cumprimentas, uma comunhão, porque é um dia bom e tu tens para onde ir e vais, não te passaria pela cabeça não ir ou deixares-te atrasar. O hábito facilita os gestos; os movimentos do teu corpo e o que pensas repetem-se cada dia. Por exemplo, pensas todos os dias, antes de sair de casa, que a verdadeira prisão seria a liberdade. Vais pensar também que, por mais só que te sintas, tens a certeza e a companhia do trabalho, e nas tardes de domingo em que não dormes pensarás, apesar da melancolia do mês e do dia, que amanhã tens para onde ir. Além disso, tens dinheiro para o café, para o metro, para o almoço e, se fores cauteloso, uma vez por mês poderás comprar o teu amaciador para a roupa preferido, um ou dois livros! Vais ter uma hora certa para lavar a roupa, para dormir, para acordar, para ir ao supermercado. Os dias bons vão depender de um equilíbrio que, não obstante os teus esforços, sabes por experiência e reflexão que não controlas. Um atraso, uma greve: não apanharás o supermercado aberto, e como será o dia seguinte sem café? Falta a água, chove dias seguidos, a roupa não seca, e porque houve uma tarde de domingo em que dormiste e a roupa ficou no cesto, vais comprar uma camisola incaracterística na pausa para almoço. Ainda assim, não tens pena de ti; pensas no verbo, és o sujeito. Sabes que são vários os modos pelos quais a vida não funciona e que todos, de alguma forma, se relacionam com a sensação de que é impossível controlá-la. É uma lição que se aprende cedo e que tu irás desaprender diariamente, caso contrário não haveria dias bons, caso contrário o trabalho não seria uma fuga, um refúgio, a tua prisão.   

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