Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

Excursos e parênteses

Uma jovem de vinte anos dizia-me, falando de um poema que líamos, que certa utilização de uns parênteses significava que o sujeito poético exprimia uma ideia pouco importante, que podia ser desvalorizada. Iniciámos então um debate sobre o uso de parênteses em textos em verso ou em prosa e naquilo que em conversa dizemos uns aos outros diariamente. Chegou-se à conclusão de que o que se dizia entre parênteses podia ser informativo ou explicativo, podia oferecer comentário ou exibir perplexidade, entre outras possibilidades. Em todo o caso, tratava-se de uma adição, não necessariamente dispensável ou negligenciável, àquilo que se dizia fora deles (daí a sensação de intromissão ou interrupção que podia emergir de dentro das paredes de uns parênteses, as paredes chamando a atenção para uma espécie de intimidade que, mais do que ser surpreendida, se queria deixar surpreender). Adiante.

Depois da conversa, vieram-me à cabeça os termos “excurso” e “excursão”. Pensando num texto ou numa conversa como um curso, há coisas que se dizem que se assemelham a excursos e que, ao afastar-nos do dito curso, tantas vezes nos confundem. Há até pessoas que se perdem no que dizem, tantos são os parênteses que vão interpondo na história que estão a contar. Essas pessoas, dizemos nós, divagam, passeiam alegremente por atalhos pelos quais nem sempre temos vontade de seguir (atalhar é, aliás, um verbo que impõe cuidados). Por outro lado, uma excursão pode também designar uma viagem de estudo ou de recreio, que interrompe outro tipo de viagem, considerada mais séria ou verdadeira. Só se fala de um excurso em relação a um curso; é difícil conceber um excurso sem reconhecer o curso de que é excurso (num discurso sempre parentético, não haveria necessidade de parênteses). Achei que a ideia de curso era tranquilizadora – há um sítio de onde se vem e um sítio aonde se chega – ao passo que a ideia de excurso denotava transvio ou mesmo desnorte. Depois pensei no lugar-comum de que o caminho se faz caminhando, e essa ideia também me tranquilizou. Lembrei-me ainda do que alguém escreveu, que a digressão é uma forma de revelação secular, e foi essa a ideia que mais me tranquilizou e com a qual não posso deixar de estar de acordo, por muitos esforços que faça para me convencer do contrário. (Dito isto, perdi-me, e depois pensei que nunca ninguém se perde, por mais atalhos que siga.)

Mais sobre mim

imagem de perfil

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Calendário

Junho 2015

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D