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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

Avenidas novas

A primeira impressão foi a de que não se podia rir ali. Os velhos casais jantavam sérios no restaurante onde acabávamos de entrar. Com garfo e faca de abrir peixe, falavam de filmes e de jardins, de filhos e de eleições, de doces de colher. Falando baixinho, jantavam a quatro, solenes, lembrando serões decentes de jogos de tabuleiro. Mais tarde diriam uns aos outros que fora agradável, que tinham de repetir: “Para a semana?” “E que tal em nossa casa?” Mas mais interessante seria fazê-los trocar de equipas: “Perfeito! Eu contigo, a minha mulher com o teu marido.” Quem diria...

Estamos em Lisboa e é o nosso primeiro jantar; nós, o novo casal. Dizer que não nos conhecemos de lado nenhum é dizer mal. Encontrámo-nos pela primeira vez na paragem do autocarro. De lá para o restaurante, não mais que um dia de trabalho distraído.

Não sabemos o que pedir, mas há vinho para o que vier. A meio das entradas estou mais doce do que a sobremesa, e começo a rir. Rio por não me lembrar do nome dele, rio da facilidade com que rio, rio por estar excitada e não se perceber. Poder ser sempre jovem, e mulher, e usar um vestido novo enquanto falo com o homem com quem sei que vou passar a noite, o que imaginei despido na paragem do autocarro, o que agora ri comigo no restaurante dos velhos casais... Embora ritual, o nosso primeiro jantar é uma ablação da cerimónia.

O riso é o nosso direito à arrogância. Rimos de ementa na mão, tentando adivinhar, mais do que quem somos, quem temos ao lado. Aqueles dois estão tensos, não vieram para rir. Reparamos nos da frente, ele não suporta os pais dela. E quanto aos outros, quem está com quem? Não se percebe. 

O tema é aquático, ladeiam-nos aquários. Vistos através do vítreo paralelepípedo, cortejamo-nos como criaturas de água, somos o seu conteúdo: não queremos senão molhar-nos. O riso flui até percebermos que não somos indistintos. Estes são os nossos contornos, temos de pedir, temos de falar. Os casais novos destronam com risadas os velhos casais, titãs das noites de ir jantar fora. Mas num restaurante ninguém ri para sempre; usamos termos e logo nos limitamos. Que maçada tudo ter nome, que tristeza não poder rir.

O serviço é lento, nós indecisos. E se nos beijássemos para escolher melhor? Poder começar-se pela sobremesa, mergulhar na doce consistência dela... Mas os olhos curiosos colam-se às faces do aquário. Com dolência séria à portuguesa, entra um novo casal pedindo mesa para três: uma criança! A paragem do autocarro está longínqua como a porta, enreda-nos a cultura das conversas de decoração. Que restaurante agradável, que mesa simpática, que avenida amena à hora nobre do jantar! Quem vê bocas não vê intenções, então temos de falar, temos de falar. Onde já estivemos antes, em que mesas nos sentámos – o que vamos pedir agora?

Se eu lhe perguntasse se tem segundo nome, talvez me lembrasse do primeiro. Então era isso... Que alívio, ainda bem! Não se deve passar a noite a chamar peixe-balão ao cavalo-marinho. Estamos prontos para pedir: queremos a conta. Adeus.  

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