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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

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Ainda sobre Nápoles

Se não me falham a memória, as contas e os calendários, em 2013 passei oitenta e quatro dias em Nápoles, cento e cinco dias em 2015, treze em 2016. Nesses três anos, foi Fevereiro o único mês em que não estive em Nápoles um dia que fosse. Ainda não sei dizer com clareza o que é Nápoles na minha memória, mas eis o que sei. É o lugar onde estudei, onde encontrei e li os livros que dificilmente podia ler em Lisboa. É o lugar onde eu estava quando iniciei trabalhos que terminei em Lisboa, no conforto dos lugares familiares onde se escreve e se trabalha com desenvoltura, mais ou menos desapaixonadamente. Nápoles é até hoje o único sítio onde vivi durante algum tempo longe das pessoas e dos lugares de todos os dias. Em Nápoles percebi a razão de o autor que tenho estudado pensar como pensa; não basta saber o tempo em que nasceu um pensamento, é preciso localizá-lo, e isso é a história. A Biblioteca Nacional de Nápoles tem uma secção sobre cinema, onde li o que lá havia sobre Roberto Rossellini, com vista para o Vesúvio. No primeiro ano em Nápoles, senti-me privilegiada e reconheci a sorte de ter nascido num tempo e numa sociedade em que outros como eu, filhos de pais como os meus, netos de avós como os meus, etc., arranjam bolsas para ir estudar para lugares como Nápoles. No segundo ano senti que não merecia uma segunda oportunidade e temi estar a brincar com a sorte. Não deve passar inadmitido o privilégio de ter tempo para andar pelas ruas, para visitar museus, para nadar quando é verão, para conhecer pessoas, algumas intimamente. É doloroso agora pensar em certos bairros e em certas vistas de Nápoles. A vista do Vesúvio é monstruosa, elegante, imponente, e em sonhos a montanha e o vulcão parecem ainda maiores, ou talvez sejam as minhas dimensões que se reduzem. Outra coisa que sei: em Nápoles deixei-me conduzir. Quanto não andava a pé – espero um dia conseguir falar, outra vez, sobre andar a pé –, fui a passageira de uma mota e de um carro. Fui conduzida em cada um desses meios por uma pessoa que eu amei, nunca de uma forma calma, coisa cujos contornos começo a discernir. Sobre tais não digo ou digo pouco, porque no mínimo se deve respeito a todas as pessoas, e mais ainda às amadas, às que devem ficar bem tidas na memória e não sujeitas a dissecações impróprias que as atiram para o domínio das não-pessoas, o domínio dos objectos de colecção que se quer mostrar. Sobre os sítios parece mais respeitoso falar. Quando andava de carro, à noite, nas vias rápidas dos arredores de Nápoles, via as luzes de terras desconhecidas. Não sabia onde estava, estava longe de Nápoles e ainda mais longe da minha casa. Fui transportada para vários lugares, em períodos diferentes, confiando sempre nos condutores. Parece mais fácil, ou menos demorado, confiar em pessoas que se pode abraçar e beijar, a que se pode entregar o corpo e deixar que este seja transportado. Por alguma razão, é mais difícil fazê-lo em casa. Vou ao café da minha rua, fico lá a ler como os reformados que vão ao café, e enquanto estou lá lembro-me das esplanadas de Nápoles onde estive sentada a fazer tempo para voltar para casa ou para encontrar alguém. Há nomes de ruas e de bairros e de igrejas de Nápoles em que penso todos os dias. O próprio nome «Nápoles», nas suas diferentes versões linguísticas, é a palavra-passe para ir para um tempo em que andar nas ruas é assistir em movimento ao primeiro espectáculo da vida civil – mas esta é, claro, uma versão minha de coisas conhecidas. Procuro, quero ir mais fundo, mas não obtenho mais do que este esboço, que talvez por sê-lo não mata o desejo de procurar.         

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