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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

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A secretária

Embora a decisão estivesse tomada há muito tempo, eu continuava a comportar-me como se não fosse assim, como se a questão tivesse ângulos obscuros por esclarecer, como se eu ainda não soubesse por onde começar. Todos os dias pensava que o hoje em que me situava era o dia, e durante muito tempo tomei a decisão de começar, sendo os sete dias de cada semana o hoje adiado que acumulava ponderáveis transitáveis para o hoje de amanhã. Convenci-me então de que ainda não sabia por onde começar, escondendo da consciência o facto de que já tinha começado. Era só uma questão de dias.

A secretária era a cama onde jaziam confortáveis os livros, as folhas, as coisas de escrever. Era o conforto de uma mente que transitava para uma secretária, o conforto de uma cama desfeita que incomodava um sentido de ordem nativo. Os meus órgãos de pensar em repouso materializavam-se nos objectos em que devia tocar, a que devia dar um uso com as mãos. O dever da secretária era o mais severo dos superegos, eu a filha que desobedecia e se revoltava sem conhecer causas, reagindo à revolta com grossas lágrimas de culpa. Não havia prazer nesse dever, o prazer parecia outra coisa, outra forma de desobediência. De culpas e pó acumulados a secretária impunha-se, crescia à vista e fora dela, até ao dia. Bem sabia, ademais, que era tudo uma questão de dias, como sempre que se tratava de cumprir um dever que nenhuma autoridade discernível me impunha. Eu preparava os dias, e os dias, um dia, escolhiam-me. Permitia que a vontade se fosse acumulando em pilhas de inactividade e, um dia, levava a cabo a acção como se não houvesse amanhã, ignorando que a acumulação, o conforto desordenado e o incómodo significavam uma crença mágica nos dias por vir. Ignorando também que a decisão, o dever e a vontade eram a mesma coisa, e eram quase o prazer.

Um dia, retirei da secretária os livros, as folhas, as coisas de escrever. Levei-as para outra divisão, guardei-as dentro de um armário. O tampo rectangular da secretária era a planta de uma casa, as riscas de pó assinalavam as fronteiras de cada divisão. Esvaziei as gavetas, separei-as do corpo da secretária, depositei o seu conteúdo no mesmo depositário. Arredei a secretária da parede, coloquei-a no centro da divisão, esvaziada e desmembrada parceira de dança de salão. As regras da empreitada eram intuitivas: de cima para baixo, primeiro o seco, depois o molhado. Com método e cura, limpei com um pano seco os lados e ângulos da secretária, passando depois à mesma operação com um pano embebido numa poção preparada com água e gotas de detergente suave para lavar madeiras. Apreciei por instantes o brilho da secretária, mas depois de seca percebi que os pequenos riscos e manchas de uso eram agora mais visíveis do que nunca; quanto mais limpa, mais imperfeita. Não consigo olhar para a secretária, senti, se eu pudesse deitava-a fora e comprava uma nova, pensei. Nesse pensamento estava a causa do problema, que apesar de pensado era inominável. Deixemo-lo estar, em todo o caso a vida é uma repetição; o que não posso é deixar a secretária como está, no meio da divisão, exposta, usada, riscada. Passemos à solução, que é dar à velha secretária a aparência de uma nova, no dia seguinte.

Começa-se por cobrir o chão que sustenta a secretária com folhas de jornal. Depois, lixar. A folha de lixa vai uniformizar e aplanar a superfície da madeira. Se se lixa com demasiada força, em particular os ângulos, a madeira pode sofrer danos, desnivelar e até mudar de forma. Com a motivação errada, é possível lixar uma secretária até à sua dissolução. Com cuidado, portanto, com método, com algum prazer. Depois de lixada a secretária, limpam-se com um pano húmido o pó e as raspas finas de madeira. Deixa-se secar. Aplica-se uma demão de produto preparatório. Deixa-se secar. Em todo o caso, o dia tem muitas horas e começou cedo. Dá-se então início à fase mais aguardada, a da pintura! Dá mais prazer pintar uma secretária do que estar sentado a uma a escrever – ou não é a isso que tudo se resume? Pinta-se a secretária com a tinta adequada da cor escolhida, usa-se uma pequena trincha, nos ângulos e cantos um pincel. Manobram-se estes instrumentos, repetem-se os movimentos da mão, com cuidado, com paciência, com prazer. Saiba-se que é tarefa demorada, e que é importante não deixar que a tinta escorra, não pintar fora do desenho, não deixar na superfície da secretária um só fio de pincel. É um trabalho de paciência e de repetição, que é o verdadeiro esconderijo do prazer. Com a primeira demão, tem-se já uma boa noção do objectivo pretendido, deixa-se a secretária em convalescença. Mas é a segunda demão, por contraintuitivo que pareça, a efectuar o milagre da transformação. A segunda camada de tinta é a da ideia concretizada, a que mais se aproxima da perfeição de uma secretária nova. O trabalho está feito, descansa-se. Pensa-se num futuro tampo de vidro, e conclui-se aquela que poderia ser, se se quisesse, a quinta história.

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