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Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

Curtos excursos

Textos curtos e excursivos, por vezes ficções.

Sexta história

«Um lápis, uma borracha, lápis de cor…»

Estávamos na cozinha, depois do almoço, quando me foi ditada a lista do material necessário para a primeira classe. Seria setembro, a memória de haver uvas parece confirmar a dedução. Conseguiria reproduzir em qualquer momento a entoação com que foram enunciados os primeiros elementos da lista, os únicos de que me lembro. A partir de «lápis de cor», a entoação muda, ou o filme emudece; não ouço mais nada. O entusiasmo de começar a escola cresceu ao ouvir a lista do material escolar. Foi importante o modo como a lista foi lida, ou não me lembraria ainda do seu início e das modulações da voz que as leu. Gostaria de pensar que o entusiasmo ficou comigo para sempre, mas não sei se assim é. Sei que não preciso de me esforçar para me lembrar das palavras da lista e da sua entoação, pois estão sempre comigo e só se perderão quando a minha memória se perder a um nível profundo.

Antes do início de qualquer acontecimento desejado – a escola, a faculdade, um livro –, sou alimentada pelo entusiasmo e quase paralisada pela impaciência, que é a marca da juventude que ainda vou tendo. Continua a surpreender-me que o entusiasmo seja tratado com desdém por quem julgue estar imune a ele pela experiência, pela superioridade da inteligência, ou pela educação da superioridade. A questão, porém, não se esgota nisto. O entusiasmo é violento, é a imposição de uma presença passional, daí que se possa reagir ao entusiasmo com desdém. Quando o entusiasmo encontra o entusiasmo, quando uma esperança se materializa numa conversa, numa busca comum, é-se feliz. O entusiasmo é a boa consciência; quando estes ressoam em alguém e são capazes de mover, é-se feliz.

Não esqueço o primeiro interlocutor do meu entusiasmo, a primeira pessoa que mo transmitiu. Isso está em mim e só desaparecerá quando eu desaparecer. Julgo assim que o entusiasmo é a crença na felicidade por vir, a crença no próprio valor, e até a própria capacidade de acreditar.

Fêmea

Vejo nos olhos dele um brilho que não me ofende: quer-me. Eu quero-o e não o temo, ele está autorizado: pode. O que eu temo eu não conheço, e temo querer tão facilmente. Com ele é fácil, felizmente. Primeiro, no carro; depois, fora dele, nas vinhas, de noite. Contra o carro, nas vinhas, de noite, sou a máquina manobrada, descanso da vigília e do temor. Não há luzes nas vinhas, mal se supõem até os sons da cidade onde, noite após noite, rebentam fogos-de-artifício. Na primeira noite, com a lua, é feita uma imagem que se deixa ali para sempre. O brilho nos olhos dele é um reconhecimento, um cumprimento a que está autorizado: fêmea. Depois, nas vinhas, a prática reconhecida, o descobrimento de um talento, o tempo certeiro, uma perícia espontânea. Depois, no carro, quase querer adormecer.            

Ainda sobre Nápoles

Se não me falham a memória, as contas e os calendários, em 2013 passei oitenta e quatro dias em Nápoles, cento e cinco dias em 2015, treze em 2016. Nesses três anos, foi Fevereiro o único mês em que não estive em Nápoles um dia que fosse. Ainda não sei dizer com clareza o que é Nápoles na minha memória, mas eis o que sei. É o lugar onde estudei, onde encontrei e li os livros que dificilmente podia ler em Lisboa. É o lugar onde eu estava quando iniciei trabalhos que terminei em Lisboa, no conforto dos lugares familiares onde se escreve e se trabalha com desenvoltura, mais ou menos desapaixonadamente. Nápoles é até hoje o único sítio onde vivi durante algum tempo longe das pessoas e dos lugares de todos os dias. Em Nápoles percebi a razão de o autor que tenho estudado pensar como pensa; não basta saber o tempo em que nasceu um pensamento, é preciso localizá-lo, e isso é a história. A Biblioteca Nacional de Nápoles tem uma secção sobre cinema, onde li o que lá havia sobre Roberto Rossellini, com vista para o Vesúvio. No primeiro ano em Nápoles, senti-me privilegiada e reconheci a sorte de ter nascido num tempo e numa sociedade em que outros como eu, filhos de pais como os meus, netos de avós como os meus, etc., arranjam bolsas para ir estudar para lugares como Nápoles. No segundo ano senti que não merecia uma segunda oportunidade e temi estar a brincar com a sorte. Não deve passar inadmitido o privilégio de ter tempo para andar pelas ruas, para visitar museus, para nadar quando é verão, para conhecer pessoas, algumas intimamente. É doloroso agora pensar em certos bairros e em certas vistas de Nápoles. A vista do Vesúvio é monstruosa, elegante, imponente, e em sonhos a montanha e o vulcão parecem ainda maiores, ou talvez sejam as minhas dimensões que se reduzem. Outra coisa que sei: em Nápoles deixei-me conduzir. Quanto não andava a pé – espero um dia conseguir falar, outra vez, sobre andar a pé –, fui a passageira de uma mota e de um carro. Fui conduzida em cada um desses meios por uma pessoa que eu amei, nunca de uma forma calma, coisa cujos contornos começo a discernir. Sobre tais não digo ou digo pouco, porque no mínimo se deve respeito a todas as pessoas, e mais ainda às amadas, às que devem ficar bem tidas na memória e não sujeitas a dissecações impróprias que as atiram para o domínio das não-pessoas, o domínio dos objectos de colecção que se quer mostrar. Sobre os sítios parece mais respeitoso falar. Quando andava de carro, à noite, nas vias rápidas dos arredores de Nápoles, via as luzes de terras desconhecidas. Não sabia onde estava, estava longe de Nápoles e ainda mais longe da minha casa. Fui transportada para vários lugares, em períodos diferentes, confiando sempre nos condutores. Parece mais fácil, ou menos demorado, confiar em pessoas que se pode abraçar e beijar, a que se pode entregar o corpo e deixar que este seja transportado. Por alguma razão, é mais difícil fazê-lo em casa. Vou ao café da minha rua, fico lá a ler como os reformados que vão ao café, e enquanto estou lá lembro-me das esplanadas de Nápoles onde estive sentada a fazer tempo para voltar para casa ou para encontrar alguém. Há nomes de ruas e de bairros e de igrejas de Nápoles em que penso todos os dias. O próprio nome «Nápoles», nas suas diferentes versões linguísticas, é a palavra-passe para ir para um tempo em que andar nas ruas é assistir em movimento ao primeiro espectáculo da vida civil – mas esta é, claro, uma versão minha de coisas conhecidas. Procuro, quero ir mais fundo, mas não obtenho mais do que este esboço, que talvez por sê-lo não mata o desejo de procurar.         

Démodée

Sou simpática, sou gregária social amiga, não tenho inimigos, não quero que não gostem de mim. Sou optimista, acho que um dia o copo transbordará, creio que a espécie não é intrinsecamente má, e é até uma espécie como outra qualquer. Sou disciplinada, sou moderada na indisciplina, não escondo, não faço mal a uma mosca, choro de medo dos insectos. Sou compreensiva, sou lúcida, defendo a inculpabilidade, recolho e acumulo todas as minhas faltas. Não me sei defender, não mando à merda, não mudo de passeio, não viro a cara para não cumprimentar, se vejo na rua um cabrão digo-lhe olá e fico bem na fotografia. Sou fotogénica, sou agradável, sonho um grande abraço colectivo. O meu cabelo é fino, exagero na maquilhagem quando choro, não sou dama fatal, não há firmeza no meu andar. Digo o que penso, fico a pensar no que disse, não quero pensar o que penso e digo exactamente o que penso querer dizer. Engano-me todos os dias. Sou política, sou silenciosa na multidão, horroriza-me a imitação. Não abdico da sintaxe, não abdico da clareza, não é uma escolha minha, é o meu único dever. Rio de mim mesma, tenho espelhos em casa. Não me sei vestir, não me sei calçar, gosto do meu corpo e da minha pele. Não há nada de não feminino em mim, não sei o que é a feminilidade. Sou confusa e clara, sou inofensiva, quero ser despercebida e desaparecer. Tenho medo do meu entusiasmo, tenho medo de não conseguir dormir. Sou ingénua, não sou parva. Não acredito que um dia vou morrer, não sou hipocondríaca, se vejo um morto que conheço também não mudo de passeio. Sou publicamente tímida, não sou introvertida. Gosto de ver. Sou muito má para mim, menos quando escrevo.              

Histórias tantas

Na pior das hipóteses, o modo como inventamos as vidas é superficial, com os perigos associados da crueldade e da arrogância de maus contadores de histórias. Somos todos romancistas, por isso gostamos de ler romances; edificamo-los nós próprios servindo-nos de quem temos em redor. Na superficialidade das piores histórias, todos são desconhecidos, nós o maior de todos, aquele de quem fugimos como se disso dependesse a sobrevivência. Nada disto é novo, o que não implica que não valha a pena dizer-se. Pertencemos a uma espécie de animais fregueses de loja vilã onde se afiam línguas. Recolhemos indícios, testemunhos, palavras lembradas, imaginadas: criamos vidas e sistemas de relações, ávidos de histórias com sentido. Entram-nos pelos olhos e pelos ouvidos vislumbres e murmúrios de factos romanescos – casamentos, funerais, ajuntamentos, procriações, fornicações de vários géneros, enfermidades, zangas, perdões, todo o tipo de ofensas – e com eles fazemos histórias que nos deixam apaziguados e nutridos. A alternativa a isso seria deixar de ser humano; mas há formas de escapar à superficialidade sem perder as histórias e a humanidade, que são inescapáveis. Quem conhecemos bem, quantas histórias podemos contar que façam justiça à vida e à verdade de quem se nomeia (ficcional ou o seu contrário)? A nossa vida não é uma história, é uma vida; mas se é de histórias que se fala, seria bom sermos mais exigentes com o que vamos lendo, com o que reproduzimos. Nisto, também a superficialidade pode ter virtudes desde que exista uma preocupação com a verdade: admita-se, por exemplo, que ainda não se aprendeu a dominar as regras da perspectiva ou, em suma, que é outro o nosso campeonato. Se nem tudo o que parece é, com que se parece aquilo que não é? Admita-se enfim que até quem se topa à distância, como orgulhosamente se diz, carece de ser olhado mais de perto.      

Quinta história

No último ano do liceu, a conjunção – em linguagem de serenidade retrospectiva – de vários acontecimentos determinou o surgimento de um conjunto de sintomas que, lido por quem sabia lê-los, apontava para uma perturbatio depressiva vulgaris. A pessoa a quem se refere a frase anterior é a primeira, sendo a que daqui em diante usarei. Estava (eu!) a um ano de ir estudar para fora, e bastaria o facto, sem a desditosa conjunção de acontecimentos, para baralhar uma cabeça em ordem. Se penso nesse ano, lembro-me de não conseguir dormir, de mal conseguir estudar, de emagrecer (o que achei ter vindo por bem), mas sobretudo da sensação de querer parar e do pensamento severo, que a acompanhava, de que não podia parar. Pode dar-se o caso de o pensamento e a sensação estarem em lugares trocados; consulte-se o ortónimo. (Uma digressão dentro desta: estudar foi sempre das coisas que mais prazer me deu. Nunca o fiz para agradar a alguém, só para me satisfazer, e nunca tive vergonha de gostar de estudar e, portanto, de gostar de me satisfazer. Eu gostava, além disso, de estudar o que quer que fosse, isto é, conseguia retirar prazer de várias disciplinas diferentes entre si. Se um professor era muito mau, apesar dele eu estudava por mim. Fim da jactância.) Associo então o último ano do liceu à sensação de querer e não conseguir parar. Paro depois, depois deste teste, depois dos exames, depois deste ano. Para quem não adivinhe, parar significava não sair da cama. Hoje não posso parar, amanhã também não, não me posso ir abaixo (deitar-me na cama e ficar lá), mas depois sim. Como a vida não parava e eu estava viva, não parei; ou assim deve ter sido, que aquilo foi simultaneamente muito pior do que parece e não tão mau como parece. Uma vez, num dos últimos testes de História antes dos exames, a minha cabeça parou finalmente de funcionar durante mais de uma hora. Pensei que podia deixar o tempo esgotar-se e negociar com a professora a repetição do teste; confiava na benevolência dela porque o episódio era singular. Ao cabo de uma hora desesperante, nos vinte minutos finais respondi como podia às questões do teste. Lembro-me desse episódio porque foi o mais perto que estive de ceder ao instinto de parar (note-se a escolha criticamente suspeita do vocabulário). Por volta dessa época, conheci uma rapariga da minha idade, a quem fora diagnosticada a mesma perturbatio, que tinha parado. Durante três anos ela não saiu da cama, ou foi essa a imagem que retive. Mais do que compaixão, empatia ou outros sentimentos que ficam bem dizer, o que senti em face dela, talvez por qualquer associação romântico-adolescente de saúde mental a mediocridade, foi uma espécie de inveja, experimentada segundo os seguintes termos: como é que não me lembrei disso antes? Ao mesmo tempo, associei a história dos três anos a uma possibilidade, isto é, a um truque na manga a ser utilizado como último recurso: se for preciso, se as coisas se complicarem muito, posso sempre parar, houve quem o fizesse e tivesse sobrevivido para contar. Ela estava melhor quando a conheci, era aquilo a que se chamava uma história de sucesso – porque não repetir a história dela? Invejei então a rapariga por estar mais doente do que eu, por ter conseguido parar. Por essa altura levaram-me a um médico da especialidade, isto é, especializado em doenças especiais. A perspectiva de falar com um adulto treinado que levasse a sério os meus pensamentos e sensações atraía-me, mas tive o azar de a primeira psicóloga que conheci ser uma jovem e pretensiosa nulidade que nem falar sabia, e como é que alguém que gostava de palavras podia respeitar alguém que, embora ricamente vestido e especializado na especialidade, não sabia falar? Fiz, portanto, o pior que podia fazer, pelo menos até então: fingi que aquilo estava a resultar. Não enlouqueci, não me revoltei, não adoeci activamente. Fui crescendo e continuando a sair da cama e desejando continuamente conseguir parar um dia. O que até hoje não aconteceu, que esta não é uma história de sucesso, salvação ou glória, mas pode ser a história da locução prepositiva lispectoriana “apesar de”.    

  

Curta dimensão

Um texto curto pode operar como um penso rápido aplicado sobre a ferida do desejo de expressão. Pode fornecer alívio imediato a consciências atormentadas pela necessidade e pelo dever de expressão, que são outras feridas bem expressivas. É curta a gratificação quando um texto é curto, e é-o também quando este não o é, se for essa a medida do valor da expressão. Um texto curto pode obstruir a exploração de ideias menores, que são por vezes o ar que circula por entre a tessitura de um texto maior. Um texto curto é impaciente, acaba antes que deixe de ser curto – o que pode ser demasiado cedo caso não se tenha precisão que baste. Um texto curto pode afinar a expressão (escrever um texto curto é escrever um texto). Um texto mau é bom que seja curto; curtos e bons, há poucos quem.   

Ninfomaníaca

A rapariga a chorar na cama pela noite dentro é um animal doente. Tem no corpo contraído a memória de um mastodonte amputado, organismo ferido numa queda de grande altura. A dor é a espera da infelicidade não concretizada, os soluços a morbidez da carne magoada pela memória de um tombo pensado acontecido. O choro fluido não purifica o animal moribundo, que devia, pensa, ser abatido. De noite, o céu precipita-se sobre a cama onde o corpo jaz, posto numa curva sobre si, enlaçando os braços os joelhos apertados. Não há fim, não há princípio, há a hora. A língua lambe os lábios e as lágrimas do organismo deitado de noite a perecer. De lonjuras imaginadas siderais, uma voz balbucia a imperativa explicação: “Fill all my holes.”

A secretária

Embora a decisão estivesse tomada há muito tempo, eu continuava a comportar-me como se não fosse assim, como se a questão tivesse ângulos obscuros por esclarecer, como se eu ainda não soubesse por onde começar. Todos os dias pensava que o hoje em que me situava era o dia, e durante muito tempo tomei a decisão de começar, sendo os sete dias de cada semana o hoje adiado que acumulava ponderáveis transitáveis para o hoje de amanhã. Convenci-me então de que ainda não sabia por onde começar, escondendo da consciência o facto de que já tinha começado. Era só uma questão de dias.

A secretária era a cama onde jaziam confortáveis os livros, as folhas, as coisas de escrever. Era o conforto de uma mente que transitava para uma secretária, o conforto de uma cama desfeita que incomodava um sentido de ordem nativo. Os meus órgãos de pensar em repouso materializavam-se nos objectos em que devia tocar, a que devia dar um uso com as mãos. O dever da secretária era o mais severo dos superegos, eu a filha que desobedecia e se revoltava sem conhecer causas, reagindo à revolta com grossas lágrimas de culpa. Não havia prazer nesse dever, o prazer parecia outra coisa, outra forma de desobediência. De culpas e pó acumulados a secretária impunha-se, crescia à vista e fora dela, até ao dia. Bem sabia, ademais, que era tudo uma questão de dias, como sempre que se tratava de cumprir um dever que nenhuma autoridade discernível me impunha. Eu preparava os dias, e os dias, um dia, escolhiam-me. Permitia que a vontade se fosse acumulando em pilhas de inactividade e, um dia, levava a cabo a acção como se não houvesse amanhã, ignorando que a acumulação, o conforto desordenado e o incómodo significavam uma crença mágica nos dias por vir. Ignorando também que a decisão, o dever e a vontade eram a mesma coisa, e eram quase o prazer.

Um dia, retirei da secretária os livros, as folhas, as coisas de escrever. Levei-as para outra divisão, guardei-as dentro de um armário. O tampo rectangular da secretária era a planta de uma casa, as riscas de pó assinalavam as fronteiras de cada divisão. Esvaziei as gavetas, separei-as do corpo da secretária, depositei o seu conteúdo no mesmo depositário. Arredei a secretária da parede, coloquei-a no centro da divisão, esvaziada e desmembrada parceira de dança de salão. As regras da empreitada eram intuitivas: de cima para baixo, primeiro o seco, depois o molhado. Com método e cura, limpei com um pano seco os lados e ângulos da secretária, passando depois à mesma operação com um pano embebido numa poção preparada com água e gotas de detergente suave para lavar madeiras. Apreciei por instantes o brilho da secretária, mas depois de seca percebi que os pequenos riscos e manchas de uso eram agora mais visíveis do que nunca; quanto mais limpa, mais imperfeita. Não consigo olhar para a secretária, senti, se eu pudesse deitava-a fora e comprava uma nova, pensei. Nesse pensamento estava a causa do problema, que apesar de pensado era inominável. Deixemo-lo estar, em todo o caso a vida é uma repetição; o que não posso é deixar a secretária como está, no meio da divisão, exposta, usada, riscada. Passemos à solução, que é dar à velha secretária a aparência de uma nova, no dia seguinte.

Começa-se por cobrir o chão que sustenta a secretária com folhas de jornal. Depois, lixar. A folha de lixa vai uniformizar e aplanar a superfície da madeira. Se se lixa com demasiada força, em particular os ângulos, a madeira pode sofrer danos, desnivelar e até mudar de forma. Com a motivação errada, é possível lixar uma secretária até à sua dissolução. Com cuidado, portanto, com método, com algum prazer. Depois de lixada a secretária, limpam-se com um pano húmido o pó e as raspas finas de madeira. Deixa-se secar. Aplica-se uma demão de produto preparatório. Deixa-se secar. Em todo o caso, o dia tem muitas horas e começou cedo. Dá-se então início à fase mais aguardada, a da pintura! Dá mais prazer pintar uma secretária do que estar sentado a uma a escrever – ou não é a isso que tudo se resume? Pinta-se a secretária com a tinta adequada da cor escolhida, usa-se uma pequena trincha, nos ângulos e cantos um pincel. Manobram-se estes instrumentos, repetem-se os movimentos da mão, com cuidado, com paciência, com prazer. Saiba-se que é tarefa demorada, e que é importante não deixar que a tinta escorra, não pintar fora do desenho, não deixar na superfície da secretária um só fio de pincel. É um trabalho de paciência e de repetição, que é o verdadeiro esconderijo do prazer. Com a primeira demão, tem-se já uma boa noção do objectivo pretendido, deixa-se a secretária em convalescença. Mas é a segunda demão, por contraintuitivo que pareça, a efectuar o milagre da transformação. A segunda camada de tinta é a da ideia concretizada, a que mais se aproxima da perfeição de uma secretária nova. O trabalho está feito, descansa-se. Pensa-se num futuro tampo de vidro, e conclui-se aquela que poderia ser, se se quisesse, a quinta história.

Novembro

Nos dias melhores, o trabalho vai ser a tua certeza, uma fuga e um refúgio. Diz-te o teu colega, nos dias inspirados em que te oferece lições de vida antes de uma pausa para fumar, que o trabalho é a melhor coisa que temos, e nos dias melhores sentes que lhe dás razão. O duche matinal e o pequeno-almoço em casa vão ser a tranquilidade que ganharás com os minutos de sono de que abdicas. Antes dos transportes, com o tempo certo e calculado e responsável da manhã, o primeiro café é um prazer esmerado; é o café comprado com o trabalho do mês passado, um primeiro café e uma manhã por dia que vais merecer todos os dias. Nos dias melhores, ainda que ninguém te veja viver de perto, vais sair de casa e não te sentirás só. O verbo é “participar”. Durante os cinco minutos de caminho a pé até ao metro e os trinta e cinco minutos de viagem até à estação terminal, participas na vida da manhã de uma cidade. O sujeito é anónimo, colectivo. Vais pensar que existe entre ti e as pessoas que te vêem, especialmente entre as que ao de leve cumprimentas, uma comunhão, porque é um dia bom e tu tens para onde ir e vais, não te passaria pela cabeça não ir ou deixares-te atrasar. O hábito facilita os gestos; os movimentos do teu corpo e o que pensas repetem-se cada dia. Por exemplo, pensas todos os dias, antes de sair de casa, que a verdadeira prisão seria a liberdade. Vais pensar também que, por mais só que te sintas, tens a certeza e a companhia do trabalho, e nas tardes de domingo em que não dormes pensarás, apesar da melancolia do mês e do dia, que amanhã tens para onde ir. Além disso, tens dinheiro para o café, para o metro, para o almoço e, se fores cauteloso, uma vez por mês poderás comprar o teu amaciador para a roupa preferido, um ou dois livros! Vais ter uma hora certa para lavar a roupa, para dormir, para acordar, para ir ao supermercado. Os dias bons vão depender de um equilíbrio que, não obstante os teus esforços, sabes por experiência e reflexão que não controlas. Um atraso, uma greve: não apanharás o supermercado aberto, e como será o dia seguinte sem café? Falta a água, chove dias seguidos, a roupa não seca, e porque houve uma tarde de domingo em que dormiste e a roupa ficou no cesto, vais comprar uma camisola incaracterística na pausa para almoço. Ainda assim, não tens pena de ti; pensas no verbo, és o sujeito. Sabes que são vários os modos pelos quais a vida não funciona e que todos, de alguma forma, se relacionam com a sensação de que é impossível controlá-la. É uma lição que se aprende cedo e que tu irás desaprender diariamente, caso contrário não haveria dias bons, caso contrário o trabalho não seria uma fuga, um refúgio, a tua prisão.   

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